Nubes

The Gallery Children of Light, located in the favela complex Pavão-Pavãozinho and Cantagalo in Copacabana, is a new exhibition space in Rio de Janeiro. Coordinated by visual artist Marco Antonio Portela since 2007, the gallery aims to exhibit artistic production to the inhabitants of a region devoid of cultural context and best known for its violence. This initiative, also expands the movement of art in the city of Rio de Janeiro.

The art gallery promotes teaching as a consequence of each exhibition, a lecture with the students of the community participating in the project, where we discussed the concept that guided each group, as well as artist presentations of exhibited works.

Nubes is an exhibition proposal commissioned to Grupo DOC (obsessive compulsive disorder), * an art collective  formed by Marco Antonio Portela, Isabel Löfgren, Mauro Bandeira and Patricia Gouvea since 2005.

Nubes will bring notions of ephemerality, lightness, transience to the gallery as an alternative to violence, insecurity, and exclusion in a favela of Rio de Janeiro. The exhibition features works by Brígida Baltar, Claudia Tavares, Dani Soter, Gustavo Speridião, Hilal Sami Hilal and John Castillo, and artists of art collective DOC.  The exhibition text is written by Yvonne Bezerra de Mello, PhD in philology, Master in public policy, artist, writer and respected advocate for the rights of children and adolescents in Brazil and the world also founder of Project Uerê (1998), an NGO dedicated for education in areas at risk in Favela da Maré in Rio de Janeiro.

June 2008.

Exhibition Text (In Portuguese)

AS NUVENS | Yvonne Bezerra de Mello | Rio de Janeiro, maio-junho de 2008

NUVEM 1
Nuvens brancas, cinzas, negras rasgando os céus no espaço são como nossas vidas.
Vidas mutantes e passageiras nas ações, nos sentimentos, nos anseios, nos karmas e até mesmo na morte.

NUVEM 2
A pobreza e as desigualdades fazem parte da sobrevivência das elites. Como nuvens, ela deveria desmanchar-se em chuva e desaparecer irrigando o solo ressecado por sofrimentos. Mas está aí, escancarada, para o bem-estar de poucos.

NUVEM 3
Deus sempre é retratado numa nuvem, Jesus sobe aos céus em outra, santos com seus pés nus sobre elas. Quando olhamos essas imagens, sem nos darmos conta, nós passamos a fazer parte das nuvens-escape. Aquelas que nos consolam, que ouvem as nossas preces e que caladas nos fazem também levitar.

NUVEM 4
A folha da árvore parecia aflita dentro da densa mata amazônica. A seiva pedia informações ao caule, o caule aos ramos e os ramos à folha no topo da árvore. Ela, nervosa e atenta ao vento que não chegava trazendo as nuvens da tormenta, salvadora das espécies. O ronco das moto-serras se aproximava anunciando a morte da vida e do começo do fim do mundo.

NUVEM 5
O caveirão entra no começo da tarde na favela. Do cano de escape saem tufos de nuvens negras, tossindo, cuspindo e esculpindo imagens nas baforadas anunciadoras do apocalipse. São as nuvens do silêncio. Ninguém fala, as portas se fecham, as pipas e as bolas de gude jazem nas calçadas.

NUVEM 6
A maior parte da população do planeta não come, vive sob violência constante, traumatizada. Carrega as dores das dúvidas e da falta de esclarecimento, magra e combalida pela exclusão. Não devia ter medo de expressar seu descontentamento. Mas tem. São os povos nuvens- Atlas. Atlas, aquele que ousou se revoltar e foi condenado a suportar o peso do mundo em seus ombros.

NUVEM 7
Um dia acordamos coma sensação de que o mundo virou neblina, todo encoberto pelas brumas. E saímos por aí, com pressa, arfando, coletando pedacinhos etéreos do que restou na terra: uma gota de orvalho, uma lágrima, tentando segurar as sombras que se desmancham.

NUVEM 8
Pássaros dos cinco cantos do mundo continuam tentando, entre as nuvens e o solo, num vôo louco, um pouso seguro. O gelo derrete, a floresta queima, o mar se revolta, os rios assoreiam, a comida escasseia. Tudo chora e a terra vira uma seara de agulhas picando os pés cansados da procura.

NUVEM 9
A nossa expiração é o nosso sistema que se libera, se desdobra em anéis invisíveis de vários tamanhos. Nuvens pequeninas de sopro anelado, vidas internas que na sua trajetória pelo ar vão se encontrar, se desencontrar, se bater, se machucar, se redimir, se culpar numa luta eterna entre amor e desamor.

NUVEM 10
Os povos africanos levantam nuvens de poeira com seus passos que lentamente sibilam e gemem sobre as areias dos desertos, do vazio imenso em que foram transformados. E eles avançam na areia sob o sol escaldante, silenciosamente, tentando manter o orgulho de uma terra que é mãe de todos nós.

NUVEM 11
Acumulus de vivências esquecidos nos solos do mundo. Experiências que se perdem por medo da verdade. E apagadas por aqueles que insistem em privar homens e mulheres do conhecimento, perpetuando a ignorância em muitos cantos da terra. A natureza humana tem um quê de suicida. Não aprende com os erros e o planeta agoniza. Acumulus de vivências esquecidos nos solos do mundo. Não deveriam se espalhar nem se desmanchar sem rumo certo.

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